quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Palavras e suspiros e Dom Casmurro
Conversando com um amigo esses dias, trocando figurinhas a respeito da construção do meu blog, ele sugeriu que eu colocasse textos mais atuais e deixasse de ser, diríamos, tão melancólico, no bom sentido da palavra. Disse-me que o que escrevo ta muito bom, mas que gostaria de ler contos que falem do nosso dia a dia, do presente. Concordei. No entanto, digo que não somos feitos só do presente, mas de passado e futuro. O passado nos dá a exata noção de tudo. Do tempo que corre cada vez mais depressa como se fugisse de alguma coisa, do envelhecer, do crescimento, amadurecimento. Das lembranças, as boas e as nem tão boas assim. Não se pode fechar os olhos, com ar de indiferença, para essa conjugação verbal que se apodera de tudo. Seria inútil. É inútil. Nessa tentativa, teríamos que rasgar todas as fotos, quebrar todos os porta-retratos, usar uma borracha para apagar as memórias. Ainda assim, seria inútil. Passado tem cheiro, cor, vibração, vida própria. O blog tem essa intenção mesmo, de ser essa memória, de registrar ou de se fazer lembrar, não deixando, no entanto, de trazer coisas atuais, novas, nem mesmo de lançar olhares para o fututo, belo, incerto e atraente. Palavras e suspiros é isso. É o todo, mas que pode ser um instante, um sorriso. É um lugarzinho que criei para me reinventar. Como se pode ler em Dom Casmurro, obra de Machado de Assis, "Para preencher a vida pacata, Dom Casmurro resolve contar suas lembranças, isto é, atar as duas pontas da vida, a adolescência e a maturidade.
domingo, 23 de novembro de 2008
"Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas"
O som vinha de longe, mais precisamente da Capital do Brasil. "Será só imaginação, será que nada vai acontecer, será que é tudo isso em vão, será que vamos conseguir vencer". Bravo! Era o que gritava em mim por dentro quando escutava as músicas da Legião Urbana pela primeira vez. Parecia que eu estava ali, em forma de poesia, falando das minhas incertezas, angústias, alegrias, dos meus amores platônicos, da política suja, da solidão que assusta e que, ao mesmo tempo, nos fortalece. "Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim, nada mais vai me ferir...". Corri numa loja de discos, sim, porque ainda não existiam CDs, DVDs, e garanti logo o meu vinil. A música unia. Intermediava o diálogo e parecia facilitar os desejos incomunicáveis. "Tenho andado distraído, impaciente e indeciso". Era mágico. Despertava sentidos adormecidos ou desconhecidos. Identificava. Cada um, antes isolado com suas dores, queixas, dúvidas, deixou de ser sozinho, e passa a enxergar-se, de certa forma, no outro que também quer romper o silêncio, falar, gritar. "Que país é esse, que país é esse?", ecoava pelo país afora. Tornou-se um hino. Era a voz que não mais silenciava. Não mais sufocada. O país se conhecia. Se indginava. Mas não era só isso não. Cada um começa a exercer sua liberdade. Antes desconhecida ou violentada. Liberdade em todos os sentidos. "Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você, não é me dominando assim que você vai me convencer". Liberdade que se espalha por todos as salas interiores ou não. "De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver." Música que aproxima os olhares. Onde a paixão se agita. Onde os corpos se encaixam. Onde o beijo se arrasta suave, lento, sem pressa. Onde há dores de cotovelo. Lágrimas. Saudade. "Mas tudo bem, tudo bem, tudo bemm... lá vem, lá vem de novo, acho que estou gostando de alguém e é de ti que não esquecerei". Tudo eternizado, se não na lembrança, na musicalidade dos sentimentos, esses sim, jamais se perderão ao longo do caminho. "Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo, todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia".
sábado, 22 de novembro de 2008
Ser livre
Não, eu não tenho nenhum compromisso com a escrita. Definitivamente, não tenho e não quero. Nem com você, meu caro leitor, que eventualmente passa por aqui à procura de sensações. Não. Isso faria com que eu perdesse a minha melhor parte, a liberdade. E a liberdade é o que tenho de melhor quando escrevo. A liberdade é a minha combustão para a fantasia. É o que me faz enxergar, ainda que me leve a lugares dolorosos. Conheço muitos que se aprisionaram e se tornaram, excessivamente, cansativos. Os seus segredos passaram a ser copiados como frases feitas, apenas. Não, eu não posso ser assim. Prefiro a insignificância dos meus atos, o anônimato das minhas palavras, a invisibilidade dos que não me vêem. Escrever é a minha salvação. Escrevo para me libertar.
"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial". Virginia Woolf.
"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial". Virginia Woolf.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
A Hora da Estrela
Todo mundo, ou quase todo mundo, sabe que o romance "A Hora da Estrela", é uma das obras notáveis de Clarice Lispector. Quem ja leu, reconhece ali, uma pérola da nossa literatura, tamanha riqueza de detalhes e "traje" psicológico da personagem Macabéa. "É uma história de uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente. Mas a história não é só isso não! É uma história de uma inocência pisada, de uma miséria anônima", revela Clarice. Macabéa, é uma mulher comum, feia, doente, mas que tem um grande sonho, o de ser Marilyn Monroe. Uma história apaixonante. Que deixa gravado na memória falas e imagens indissolúveis no tempo. Falando nisso, me veio em mente umas das cenas de A Hora da Estrela. Macabéa compra um batom vermelho e se tranca no banheiro da firma onde trabalha e se pinta. Há aqui o desejo de ser como as estrelas de cinema. Mas a película é muito mais que isso. O tempo passa e o livro vira filme. Adaptado para o cinema, com a direção de Suzana Amaral, o romance se tansporta para as telas cinematográficas, é bem aceito pela crítica, premiando a atriz, paraibana, Marcélia Cartaxo, com o Urso de Prata no festival de Berlim, na Alemanha. O cinema brasileiro é bom e de qualidade. Também quero dizer que esses dias participei de um seminário aqui em Brasília sobre Cinema e Literaturas, cujo tema central foi a obra de Clarice, mais precisamente, a personagem Macabéa. Entre os convidados estava a cineasta Suzana Amaral. Uma mulher que me lembrou a persongem do filme. Meio franzina, de baixa estatura, aparentemente frágil e que parece guardar em si uma certa inocência, a mesma inocência que se escondia em Macabéa. Sentada à mesa, ela, Suzana, toda silenciosa, observava apenas. Mas de uma coisa eu sei, que ela e Macabéa são bem diferentes. A grande diferença está em uma ser anti-heroína e a outra não. Fazer cinema no Brasil é fazer papel de um herói. E para mim, Suzana é. Pelos motivos que todos nós conhecemos. Eu, sentado na plateia, encantava-me com aquela mulher de voz meio grave, quase rouca, ora sem força, ora estridente quando a boca aproximava-se do microfone. Surpreendia-me diante daquela mulher que crescia à medida que falava. Rompia o silêncio com frases engraçadas e hábeis. Ela foi, aos poucos, tomando conta da sala, preenchendo cada espaço vazio. Se revelando como se quisesse ser uma personagem de Clarice. E era. Era uma personagem ainda em construção, alegrando-sem em seu tempo. Uma mulher que corria pelos anos, contando suas histórias, suas escolhas, sua trajetória como pesquisadora, como cineasta, como mulher. E fez daquele momento, pelo menos para mim, a sua A Hora da Estrela.
sábado, 8 de novembro de 2008
Ainda lembro
Saudades todos nós sentimos. Seja ela qual for e como for ou de quem for. Saudades da infância, das travessuras, dos primeiros amigos de verdade, é um tipo de saudade, eu diria, que não dói, ela vem e repousa na frágil memória como uma folha que cai suavemente do galho e se acomoda no chão. E mais uma cai e mais outra... Às vezes numa dessas horas sem ter o que fazer me pego pensando em amigos que não vejo há muitos anos, em tempos que, hoje, existem só na lembrança. Ai vem aquela sensação ou o desejo de como seria bom se pudéssemos voltar no tempo. Recordar é reviver. Me lembro nesse momento, de uma mulher que passava pela minha rua no final da tarde puxando alfinin. Como ela era esperada! Alfinin, pra quem não conhece, é um tipo de doce feito do mel da cana-de-açúcar misturado a outros ingredientes. Uma delícia! Também me recordo de um senhor que passava vendendo quebra-queixo, uma espécie de cocada ou sei lá o que, que de tão liguento, grudava nos dentes. Do algodão-doce. Dos suspiros. Das castanhas. E de um cordão de côcos que o vendedor trazia pendurados no pescoço. E nós lá, comíamos tudo, sem se preocupar com higiene ou coisas parecida. Das chuvas também no final da tarde. Ficávamos todos numa inquietação só, dentro de casa só esperando um sinal positivo dos pais pra cair na rua. Era uma farra. Das brincadeiras de "guerra-guerriou", "peinha-queimada", "barra-bandeira", "sete-pecados", de se "esconder", entre tantas outras. Meu Deus, parece que foi ontem. Das reuniões intermináveis que começavam logo ao cair da noite. Como tínhamos assunto! Das aventuras em subir morro, casas em construção, brincando de "é ingancho", brincadeira que se dava em fazer uma determinada coisa em que todos tinham que repetir, se não era taxado de mole, de "mulher do padre" e por ai vai. Um bando de moleque que se divertia apenas em estar na companhia da sua turma, com suas fofocas, conversas, piadas. Uma infância cheia de meninice e que guardo como um tesouro de pirata. Ainda lembro.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Música para ouvir
Um calor sufocante. O tempo parado. O vento quase não sacode as folhas das árvores numa manhã de sol que convida a nadar. Quase nada pra fazer. Uma rotina que beira o tédio. Mas sempre há mais para conhecer, bisbilhotar, pesquisar, ler. Numa dessas tentativas de redirecionar o olhar sobre as coisas, de acalmar em mim o tédio que cresce com as horas, ligo o computador, ainda bem que existe um remédio anti-monotonia, como dizia o poeta, seja ele qual for, e na tentativa de preencher a ausência do que fazer, viajo entre blogs de poetas, escritores, atores e por ai vai. Acabo por me entreter com o do Zeca Camargo. Leio seus posts. Escreve bem e isso me agrada. Num de seus textos publicados, me deparo com uma lista das "mil músicas mais importantes", pra ele. Bateu uma curiosidade. Começei a procurar no google uma por uma. Também comecei a ouvir e, confesso, gostei do seu gosto musical. Muitas delas não caberiam na minha lista das mais importantes, talvez por não conhecê-las ou por, decididamente, não fazerem parte da minha trilha sonora. Algumas bem familiares. Visceral eu diria. Outras nem tanto. De qualquer forma, esta sendo um belo passeio. Devo me demorar nessa "gastronomia musical". Um passeio que agrada, principlamente, aos meus ouvidos, cheios de silêncio numa manhã aparentemente infértil.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Meninice
Nada como nadar num rio, pelado e com a inteira liberdade dos peixes. E essa liberdade vinha com o inverno. Eram outros tempos. Tempos memoráveis. Ser criança era guardar a magia dos segredos e da inocência. E os segredos se multiplicavam durante as chuvas e enchentes que sempre traziam consigo, além da esperança espalhada pelos pastos, a alegria estampada nos olhos. O nosso melhor segredo, corria por debaixo da ponte e por cima dela, trens carregavam sonhos. Digo nosso, porque dividia com mais meia dúzias de amigos e primos. Lembro que o tempo se preparava, mudava de cor. Ventos anunciavam a chegada de muita chuva. Era o inverno que nascia de nuvens carregadas e de relâmpagos nervosos. Cheio de ansiedade, ficava deitado na rede escutando a chuva batendo no telhado. Desejava chover a noite toda e por vários dias. E esse desejo tinha uma explicação: ver o rio ser rio novamente, porque com a estiagem ou a seca, o rio mais parecia um corte na terra. Uma rachadura. Uma ausência. Após dias e dias de muita chuva, tudo se transformava. A natureza respirava aliviada. Os bichos mudavam de humor. E o povo caminhava mais corajosamente. Eu, me reunia com a mulecada e, às escondidas, ia partilhar alegrias. Corria para o rio. Nadava incansávelmente. Subia na ponte e pulava na água. Repetia o mesmo ato inúmeras vezes, antes que o rio se fosse novamente. Antes que aquela veia d'água, voltasse a ser um espaço vazio e uma ausência sem nome, que só entende quem vive em terras cheias de cicatrizes.
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