quinta-feira, 3 de novembro de 2011
"Olha a vela manivela, quem não compra faz novela"
Gostava de ouvir essas palavras cantadas sem nenhuma afinação. "Olha a vela manivela, quem não compra faz novela". O que me chamava à atenção era a rima improvisada e cheia de criatividade das crianças que vendiam caixas de velas no dia de finados na porta dos cemitérios. Lembro-me que, apesar de ser uma data triste para os mais velhos, para nós, crianças, era um dia festivo. Quase comparado a ir ao parque de diversões, tamanha era a expectativa. Um dia esperado o ano todo. Logo ao acordar, a ansiedade já tomava conta. Muitos dos meus primos estariam lá também e se isso acontecesse, a farra estava garantida. A tristeza era algo distante, alcançava só os adultos. Nós, os moleques, na inocência que nos cabia e na ausência da dor da perda, parecíamos inatingíveis. Tudo era diversão. Logo na entrada dava de cara com as rimas estridentes para tal ocasião. Crianças se espalhavam por todo o cemitério, gritando desesperadas e anunciando preços das caixas de velas, que eram disputadíssimas, por sinal. E ali, naquela caixinha sem tanto significado, estava o quê da nossa felicidade. Sem aquelas caixinhas que serviam para iluminar as orações e reverenciar os mortos, não seria possível a nossa diversão. Acender uma vela sequer já nos deixava satisfeito. O sonho realizado, mas ainda não saciado. Difícil mesmo, era aplacar essa vontade de um ano inteiro de espera. Como não podia acender muitas caixinhas de velas, ficava vigiando cada uma delas derreter. Observava as várias formas das chamas e à medida que a noite caia, o cemitério ia se tornando iluminado. O chão parecia um céu estrelado. E ali, na inocência dos meus poucos anos, do meu jeito de criança, acendia uma vela repetindo o gesto de um adulto qualquer e fazia a minha prece, uma prece cheia de alegria.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Melancias de Santo Antônio
"Glorioso Santo Antônio, grande amigo do senhor, escutai nosso pedido, sede nosso protetor". É cantando em procissão que os melancienses enviam aos céus suas preces e suas orações, numa forma de agradecimento e súplica ao seu santo padroeiro. O pequenino distrito das Melancias, assim mesmo no plural, cravado no interior do sertão paraibano, respira festa, emoção e fé todo dia 13 de junho. Em meio a terra árida e rochas esculpidas pelo tempo, o povoado se une e se prepara para receber seus filhos e filhas. Enfeita a praça central com bandeiras e balões, arrumas as mesas, organiza quermesse e constrói uma passarela para o desfile de rainhas e príncipes que têm no seu curto reinado a inocência revelada nos olhos. Enfeita-se, principalmente, de felicidade e de alegria. Qualquer melanciense sabe do que estou falando. Carrega na memória lembranças cheias de saudades como se carregassem um pote de ouro. Na festa que celebra não só o padroeiro, pode-se enxergar um encontro de gerações celebrando, também, a vida. Tudo começa com a trezena de Santo Antônio. São treze dias de orações que culmina com a coroação do padroeiro. A festa religiosa, com missa, cantos e agradecimentos por uma graça alcançada. Em meio a devoação e respeito, uma procissão sai da igreja, que traz o nome do padroeiro, Santo Antônio, e segue desenhando a geografia das Melancias. Com velas que mais parecem vagalumes em noite sem lua iluminando as ruas, o melancienese se torna um só na voz e na fé no Santo que os observa silencioso de lá de cima do andor. Ao retornar à igreja, a queima de fogos que sobe em direção aos céus, leva consigo uma prece de cada um como se fosse uma maneira de chegar mais rápido e mais próximo do Pai Celeste. Viva a Santo Antônio! Vivaaa! E pode-se ouvir os estouros dos fogos brilhando no céu iluminando as faces dos que aqui em baixo ficam, renovados pela fé e esperança.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Eu e o outro
Um friozinho bom e meus passos vão se tornando cada vez mais apressados. A lua alta, silenciosa, me observa em segredo. Eu, porém, a observo como se quisesse alcançar seu mistério. Lanço sobre ela um olhar curioso e me contento com um pensamento que trago das noites de lua clara que iluminva o sertão. Outros tempos. Apresso novamente o passo e o frio se torna mais intenso. A lua imóvel poetisa sem palavras a noite que desce sobre a cidade numa espécie de brinde extra. Sigo minha caminhada entre meus pensamentos e os muitos atletas que perpassam por mim a cada instante. Alguns bem mais apressados, outros, lentos, enchendo o peito de ar e esvaziando em forma de prece. Meu pescoço dói, paro e alongo minha coluna. Estou envelhecendo, penso. Vou enfrente. Começo a observar quem passa. Rostos aliviados. Mas nem todos. Uns com aspecto de dor, insitem em continuar correndo. Meu Deus, digo a mim mesmo. Entre tantos que observei, um me chamou mais a atenção. Um senhor, já com seus quase 70 anos talvez, caminhava lentamente. Silencioso. Olhar para o nada. A sua solidão se mostrou generosa e eu pude ali dividir com ele a minha. Me via nele. Fui gradativamente ajustando os meus passos para caber no seu mundo. Olhava pra ele quase implorando um sinal, um olhar de volta, um gesto. Ele seguia como se não se importasse. Me senti filho. Me senti seguro. Queria que ele soubesse. Fiquei imaginando como seria a sua vida. Ele, porém, inviolável. Tinha traços de alegrias, percebi. Será que tinha alguém esperando ele em casa? Filhos, netos, esposa. Tentei decifrar algo mais a seu respeito. Nada. Com seus passos firmes, retos, não parecia ter pressa e mantinha-se indiferente a tudo ao seu redor. Nem uma tosse, um suspiro, uma demosntração de cansaço. O seu mundo era só seu. A lua ainda mantinha-se no nosso horizonte, meio baixa, meio torta, mas lá, assim como os segredos de cada um que por ali passava. A noite se tornava mais densa e mais fria e começava a se distanciar, a crescer na escuridão como o nosso silêncio, que crescia à medida que a gente ia se afastando para que cada um mantivesse a sua vida em segredo. Nada mais.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Galinhas e outras lembranças
Durante aquele ano os dias se passavam lentamente, queixava-se Alfredo logo ao levantar da cama. O sol já se estendia sertão afora e podia-se ver o mundo até onde à vista alcançasse. Alfredo acordava com as primeiras horas do dia, fazia seus rituais matinais e depois seguia até o alpendre. Lá se sentava na sua velha cadeira de balanço, pegava um pedaço de rolo de fumo e começava a preparar o primeiro cigarro daquela manhã. Esse vício ainda vai acabar comigo, dizia pra si mesmo. Ali ficava em silêncio a observar a paisagem ao longe já meio trêmula, causada pelo andar da hora e do calor de dezembro, que lhe servia de pintura num horizonte avermelhado desde os primeiros raios do sol. Dentro de casa o cheiro forte de coisa velha e a poeira acumulada nos móveis de madeira antigos, com nomes e datas de aniversários rabiscados pela ponta dos dedos sobre cada tábua que compunha a mesa, pareciam servir como memória ou coisa assim, caso a parte humana viesse a falhar. O certo é que Alfredo já não lembrava direito nem se quer do rosto familiar dos mais próximos, e parecia acostumar-se ao equecimento. Talvez, a poeira nos móveis pudesse manter intacta a sua já frágil memória. Do lado de fora as galinhas comiam seu milho de anteontem ou sabe-se lá de quando, que tinha sido jogados com abundância. Sentado na sua velha cadeira de balanço, que rangia como dentes que se serram, Alfredo fitava o horizonte como se esperasse alguém. Os olhos fixos diziam isso. Na companhia de seu fiel escudeiro, Ciço, papagaio esperto e com memória ainda boa, Alfredo não se dava conta que muito tempo se passara. Entre uma tragada e outra no cigarro que queimava como se queima o tempo, Alfredo foi pego de súbito por uma voz não empoeirada, mas viva como o agora. O papagaio se agitou e as galinhas se assustaram de repente, pois não estavam acostumadas a visitas. A cadeira parou de ranger e Alfredo como se não quisesse acreditar e se esforçando para buscar na tábua empoeirada aquele rosto familiar, levantou-se e perguntou como seria possível. Antes mesmo de chegar até o alpendre e se aproximar por completo, uma voz chegava até os ouvidos de um Alfredo incrédulo, e como num susurro soprava palavras que fugiam pelo espaço. Um pequeno cochilo e o velho sonho de volta, acorda de súbito. Lágrimas caiam sem mistérios dos olhos de Alfredo. E ali, naquele instante, o tempo parou. A cadeira volta a balançar e a ranger. Alfredo pega mais um punhado de fumo e prepara mais um cigarro. Acende e traga tão forte como se quisesse ainda alcançar àquela memória. Levanta-se e vai até a mesa empoeirada e varre com a mão as lembranças, uma por uma, e volta ao alpendre, senta-se e fica a fitar de novo o horizonte como se esperasse alguém.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Vitrine do passado
Recordar é viver! Essa máxima sempre me deixa inquieto quando começo a vasculhar minhas memórias, vividas ou não, frágeis ou não, puras ou não, inocentes ou não. É que a inocência nem sempre vem acompanhada de flash back. Mas ela existe ou existiu em algum momento de nossas vidas. Falar do passado nem sempre é prazeroso. No entanto, pode ser encarado de forma saudosa, pelo menos. Ainda mais quando esse passado deixou marcas, nostalgia, gostinho de quero mais. Quero declarar aqui mais uma vez, que gosto de falar sobre Cajazeiras, de uma Cajazeiras que vive na memória de muitos. Nesse passeio pela memória e por ruas de um passado não muito distante, começo aqui um roteiro que traduz todo esse sentimento de amor à nossa terra. É fechar os olhos e começar a ver o que o tempo não alcança. É como se fosse uma vitrine, uma vitrine no passado. Nela podemos ver nossas lembranças tão vivas como nós agora. Pra começo de conversa paro em frente a Carlos Center e escuto o trecho de uma música de Paulo Diniz que diz "como vou deixar você se eu te amo" e sinto uma vontade enorme de sentar do lado de fora e ficar apreciando o vai e vem das pessoas, sem pressa, como se eu fosse o dono do tempo. Ah o tempo! Porém vou seguindo o meu roteiro e me sento no banco da praça João Pessoa em frente ao Playboy. Ali, posso ouvir uma canção da época e conversas das mais variadas possíveis. E ver risos descontraídos e gargalhadas cheias de entusiasmos. A praça, a velha praça que outrora serviu de palco de grandes encontros e noites intermináveis, que já rendeu homenagens à Cazuza, Madonna, também abraçou noites de muito frevo e axé music nos dias de carnaval. A praça, que guardo na memória como um cartão postal amarelado cheia de tantos segredos e paixões. Um pouco mais abaixo e passo na Chapéu de Couro pra dançar ao som de Lulu Santos "por que só faço com você (so faço com voce), só quero com você (só quero com você), só gosto com você ê ê, advinha o que?" lá de cima, observo as luzes desenhando silhuetas e vejo beijos apaixonados. Mas não paro por aqui não, sigo meu caminho. Talvez um pulinho até o Pirulito, bar sempre cheio e ponto de encontro mais disputado da cidade. Nascimento traz uma dose, peço! Sentado em baixo de uma grande castanheira sinto o ar puro e vejo o vento açoitar os galhos e folhas das árvores como se fosse para anunciar que a noite será agradável. Logo logo não haverá mais mesas, penso. Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho são os convidados da noite. O público gosta e sempre pede suas músicas que vêm acompanhadas de um martini, de uma dose de montilla, de um campary, uma vodka, ou cervejas geladas. Na outra ponta um pedaço menos disputado. Lua Nua é um barzinho pras pessoas mais, diríamos, descoladas. Lá as músicas de Caetano, Gal, Gil, Chico eram quase hinos. Um noite que antes fervia, proporcionando várias opções, hoje, presa numa vitrine do passado que adormece no silêncio das nossas lembranças. Ah, o tempo!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
O sonho de Eliézer
Cajazeiras não mais é uma cidade do interior do sertão paraibano. Defiitivamente não mais. Ela agora, também, se faz presente na capital federal. Uma cidade que nem a nossa não poderia limitar-se a um único canto de chão. Cajazeiras ultrapassa, através da geografia do coração do seu povo, linhas sertanejas e se estende Brasil afora. Prova disso, foi o que aconteceu sábado dia 11 de dezembro aqui em Brasília, que se transformou numa pequena Cajazeiras para exibir o filme sobre Padre Rolim. O planalto central tornou-se sertão, não árido, mas fertilizado por cajazeirenses daqui e de longe, que vieram homenagear a nossa história. Das mãos e do sonho de Eliézer Rolim, o homenagedo da noite, nasceu o filme O Sonho de Inacim, que conta a fascinante história de Padre Rolim. Mas não só isso, a película imortaliza, também, a cidade de Cajazeiras nas suas várias dimensões, entre o passado e o presente. Traz o dia a dia, as peculiaridades, as mungangas, a irreverência e a bravura de um povo. Antes de começar a exibição do filme, no entanto, Eliézer, no seu jeito cajazeirense de ser, é um dos personagens que dá vida ao roteiro. Muitos não perceberam, mas nas suas falas O Sonho de Inacim, já havia começado. O nosso conterrâneo, de jeito simples, meio tímido eu diria, que também já emocionou muita gente no teatro, mais uma vez emociona pela delicadeza com que trata os fatos, as vidas, a obra e a história de Padre Rolim. Com os peitos estufados de tanto orgulho, esperamos nervosamente ansiosos pelo filme, porque sabemos, nós também, estamos representados lá, somos parte daquela história. Somos parte quando a gente vê o Cristo Rei, o colégio Diocesano, o Nossa Senhora de Lourdes, a Igerja Matriz, e porque não, quando a gente vê a figura folclórica de Noventa e Nove. Eliézer falou do seu sonho antes de decidir definitavemente sobre as filmagens. Na sua intimidade revelada ali, deixa sair que de jeito nenhum queria trabalhar naquele roteiro. Um filme que traria mais uma história de um padre, talvez, não fosse comercial ou coisa do tipo. Depois pela falta de patrocinadores. Mas o destino, se é que se pode dizer assim, ou mesmo uma mãozinha de Padre Rolim, o fez mudar de idéia. O sonho, que trazia uma mensagem sobre a beleza do sertão, e nessa beleza a história de Padre Rolim, fez o cinesta acordar de súbido e a partir das 3 horas de uma madrugada qualquer, começou a escrever o roteiro que ja rendeu 13 laudas. O destino cumpriu seu dever. Padre Rolim, estava agora, não mais como sonho, mas numa realidade sem volta. Sentindo que a espera pelo início do filme gerava uma certa ansiedade na plateia, Eliézer, sai de cena para dar lugar a sua criação. O cine Éden merecia aquele espetáculo, pensei. E acho que muitos ali presentes também. O filme começa.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Tempo de roubar mangas
Religiosamente a campainha tocava às 7h15min. Mas antes disso, era preciso exercitar a nossa nacionalidade. Todos ao redor da Bandeira, hasteada todos os dias antes das aulas começarem, nos reuníamos para cantar em alto e bom som o hino nacional. Mão no peito e tudo como forma de demonstrar respeito pela pátria. O cenário desse relato é também um caso de amor e uma forma de manter viva a lembrança de tempos que só se perpetuam na memória. Muitos estudaram ou passaram pelo Colégio Diocesano. Tinha nome e reputação imaculados. Era status estudar lá. Farda branca com azul e posteriormente branca com cinza, eram as cores que simbolizam um dos colégios que se confunde com a história da cidade. De arquitetura imponente e localizado num dos pontos mais altos da cidade, o colégio assistia, e ainda assiste, silenciosamente, Cajazeiras crescer e se desenvolver. Enquanto tudo cresce ao seu redor, ele fica esquecido entre muros e paredes cheias de histórias, como se fosse um cartão-postal vivo, mas sem vida. O colégio Diocesano agoniza, verdade, mas mantém-se intocável na lembrança de cada um que por lá passou. Lambranças são muitas. Cheios de nostalgia nosso olhar se volta para a torre da igreja do velho Diocesano, como se quisesse alcançar o que não mais se pode alcançar, nem por mim, nem por ninguém. Sons ainda ecoam nessas lembranças. Como o dos jogos internos, das músicas nos intervalos, das missas, dos ensaios da banda para os desfiles. Tudo isso lhe dava um certo ar de superioridae. Outros, podem lembrar das aulas de educação física, ministradas pelo professor Carlos Ferreira, que nos ensinava, também, como ter disciplina. As competições de espiribol, e sua filas intermináveis esperando o "terceiro", às vezes frustrado pelo som da campainha que anunciava o reinício das aulas. Nesse caldeirão de recordações, cabe aqui colocar as turmas reunidas para conversas longas nos recreios. Gente namorando às escondidas, longe dos olhos do diretor, nosso saudoso Padre Gualberto. Particularmente, lembro que, outro desejo era compartilhado por quase todos os alunos: o de roubar mangas. Roubar no sentido inocente da palavra, no sentido de transgredir um pequena regra. Mangueiras carregadas nos convidavam até. Era mais um convite que propriamente um furto. O que se aplicava ali, era o fato de ser ou não capturado pelo vice-diretor, o implacável Damascena. Era o desafio. O que poderia render uma pequena advertência ou um dia em casa. Entretanto, tinha sempre alguém que se arriscava. Uns, com sucesso total e com a cumplicidade de muitos. Outros, se contorciam nervosamente em frente a Damascena tentando se justificar ou convence-lo do ato falho, arrependido e implorando para ser inocentado, mas talvez, cheio de felicidade pela medalha simbólica que todos recebiam, merecidamente, pela conquista da tão desejada manga. Fiquei sabendo que o Colégio Diocesano não funciona mais. Não como antes. Que hoje abriga silêncio, solidão e descaso a um passado que tanto nos orgulha, e que não se pode perder pela falta de compromisso com a história da nossa cidade. Lembrar do Diocesano é também lembrar de gente. Lembrar de dona Socorro da cantina, de Renê Moésia, de Aldineide, de dona Fátima que ensinava inglês, de dona Fátima de matemática, de Jacinta que ensinava religião, de Peixoto que ensinava química, de Erivaldo professor de geografia, de Assis professor de biologia, de seu Antônio que ensinava física. É lembrar de nós mesmos e de tantas outras coisas que querem nos roubar. Lembrar do Diocesano é também lembrar do tempo de roubar mangas com saudade de um passado que o descaso não pode apagar da nossa indelével memória.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Tereza do Pau e a Mulher Queimada
Do pau era uma espécie de sobronome. Era o sobrenome. Pou, pou, pou... ainda ressoa nos meus ouvidos essa onomatopéia. Tereza era uma mulher cheia de personalidade e uma viajante em si mesma. Uma mulher de uma elegância reciclável. Andava pelas ruas da cidade, espalhando medo e admiração. Não tinha lar. A rua era o seu lar. Mas nem sempre foi assim, dizem os mais velhos. A Mulher Queimada também tinha a rua como um lar. E as tristes lembranças como companhia. Ambas pareciam livres, mas presas por um passado amargurado e sem cor. Por um passado que se perdeu junto com a memória. Segundo se sabe, Tereza foi uma educadora, tinha família. A Mulher Queimada também tinha sua história. Imortalizadas como os mitos, tornaram-se conhecidas, uma pelo som que emitia e a outra, por andar sempre com uma espécie de cajado. Ambos usados para se defender, imagino. Sempre elegante, Tereza vestia trapos que combinavam plásticos com tecidos alegres. Gostava de estar pronta. Seus cabelos, quando não estavam presos por panos velhos, mostravam-se cuidadosamente penteados e tingidos por uma cor que parecia da moda. Nas maçãs do rosto, uma maquiagem avermelhada para, talvez, apagar a pálida sensação que a perseguia, a de não ser mais quem era. Pou, pou, pou... emitia mais uma vez seu som a Mulher Queimada, que não pareciam um descontentamento. Seu grito parecia mais uma espécie de saudação por ainda estar viva. Sim, porque segundo contam, ela ateou fogo a si própria. Uma desulisão amorosa, dizem. De aparência frágil e por andar sempre amparada por seu inseparável cajado, a Mulher Queimada o segura, como se fosse a única coisa que a mantivesse de pé, equilibrada, uma vez que desabou sobre a própria e imutável certeza, a de estar segura. Nunca me pareceu indignada, sempre me pareceu aceitar o seu destino como só os grandes o fazem. Tereza era grande, imponente, embora estivesse vestida como mendinga, pareceia ser uma dessas personalidades importantes em noite de festa recepcionando seus convidados com o melhor vinho e a melhor comida. E de certa forma estava. Estava a mostrar que ainda caída, estava de pé. Tereza não morreu, nem tão pouco a Mulher Queimada. Porque mitos não morrem jamais. E nem lutaram para tal merecimento, apenas desfilaram pelas ruas como majestades de si mesmas e rainhas de seus castelos contruídos sobre ruínas e escombros, vestidas do pouco da dignidade que lhes restavam. Mantinham-se quase eretas. Pou, pou, pou, um som que guardo como se fosse para ser guardado e só. Tereza esqueceu-se para ser lembrada, a Mulher Queimada também.
terça-feira, 4 de maio de 2010
De pequenas coisas
Uma pequena fila se formava logo no início da noite. Mal as luzes se acendiam e todos estavm lá, para garantir o seu lugar, o melhor lugar. Fragrâncias passeavam ao vento espalhando a liberdade de escolha. Cabelos ainda molhados revelavam a impaciência em se aprontar para tal evento. As mães queriam caprichar na roupa, no penteado, no perfume, mas os filhos queriam mesmo era estar lá, de prontidão para não perder nenhum acontecimento, nem mesmo antes da grande cortina vermelha se abrir. Era uma novidade que, apesar de não apresentar nada de tão novo assim, sempre trazia expectativas. Um beijo de relance e os pés já se encontravam apressados pelas ruas que levavam até a grande hora. O empurra empurra era de costume. Ninguém queria ser o último a entrar. Bem acima das cabeças nervosas, o colorido de lonas gigantes aguçavam mais ainda a curiosidade. Todos querendo advinhar o que ia se passar lá dentro, embora quase sempre soubessem. Os pensamentos eram povoados por mulheres barbadas, talvez, por homens pequeninos, palhaços, animais ferozes, trapezistas, malabaristas. Algo que tivesse sido visto em outro show. Mas nada tirava o brilho, nada fazia com que a respiração ficasse mais ofegante e o coraçãozinho mais palpitante. Antes mesmo de entrar, já imaginavam-se as cenas, as gargalhadas, as brincadeiras dos palhaços, momento mais esperado por todos. Já dentro, o sonho realizado, o sorriso de satisfação, a cara abobalhada diante dos mágicos, a respiração que deixava todos suspensos. A magia mais uma vez se repetia. As expectativas mais uma vez atendidas. Aplausos e mais aplausos. Um aceno e a cortina se fecha guardando seus outros segredos que serão revelados em mais uma noite de espera. E o alvoroço, mais uma vez, dá lugar a calmaria para uma nova espera, para novas sonhos. Um mundo de sonhos feito de pequenas coisas.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Um homem chamado João de Manezim
Os tempos são outros, mas a alegria e a irreverência são as mesmas. João de Manezim é mesmo um contentamento. Quem nunca o viu, de perto logo reconhece aquele paraibano que todo mundo, todo cajazeirense já ouviu falar. Engraçado, jeito de menino, desinibido, simples. Essas são algumas impressões que ele nos passa. Mas João é mais que isso. É, antes de tudo, um sertanejo forte. Um guerreiro e porque não dizer um político que sabe cativar as pessoas. E João é, acima de tudo, emoção. Foi isso o que primeiro me chamou à atenção quando o vi no aeroporto emocionado. Surpreso com uma recepção mais que merecida, João de Manezim, parou por alguns instantes e, talvez, tenha se perguntado se merecia àquela homenagem. De aparência frágil, foi chegando de mansinho. Assustado por se encontrar longe de seu habitat natural foi logo dizendo, como forma de “quebrar o gelo”, que nunca saiu de sua região. Com traços fortemente marcados pela ação implacável do tempo, que faz questão de imprimir sua marca, João, revela sinais expressivos de alguém que vive no seu tempo. E fora dele. Ao vê-lo “pinotando” no salão de desembarque percebi que sua alma não envelheceu, porque a alma nunca envelhece. Cansado da viagem, João não perdeu a leveza e a sua pureza de menino sorridente e travesso. Parou diante da sua aventura e a colocou debaixo do braço como se fosse uma fantasia de carnaval. Porque pra João de Manezim a vida parece ser sempre um carnaval. Nessa sua vinda à Brasília, que comemora seus 50 anos, João de Manezim é um convidado ilustre. Ilustre por ser o representante da nossa Cajazeiras. Ilustre por ser gente, terra, ser água do açude grande, ser da praça do “Padim Ciço”, ser acima de tudo figura de nosso povo. Junto a tantos outros conterrâneos, João lançou a pedra fundamental da Associação dos Cajazeirenses e Cajazeirados, aqui na capital. O seu amor a Cajazeiras revela isso melhor que essas palavras. Quem sabe amar seu lugar, sabe respeitar, sabe elogiar, sabe cuidar e sabe mostrar, mais que qualquer outra pessoa, os seus valores, sua gente e sua alegria. Na emoção ao ver a bandeira ser hasteada, João de Manezim, revelou sua grande paixão pela cidade que ensinou a Paraíba a ler, e isso diz tudo.
sábado, 14 de novembro de 2009
Pertencer
...Talvez fosse primavera, inverno quem sabe. Talvez fosse ainda verão com seus dias quentes ou chuvosos. Outono mais uma vez, com suas folhas amareladas indicando a passagem de uma estação à outra. Mas se não me falha a memória, lembro que tinha alegria e uma certa pureza de detalhes. A vida era como se não fosse, uma silenciosa sensação de pertencer. E ali não cabiam explicações demoradas. O que se queria revelar, estava lá, diante do olhos, mas de uma maneira que não se revelasse completamente. E isso não implica dizer que não se tinha a noção coisas, das imperfeições, dos medos, dos sonhos, dos desafios. Não. Naturalmente, era o estado de pertencer que nos colocava diante das possibilidades. Nesse estado de pertencer o mundo ia se apropriando de nós e nós dele. Era mais simples pertencer. Ficou complicado. O homem cabia no mundo. Na mudança de estações, perdemos, com o passar do tempo, essa sensação. Parece que esquecemos de pertencer. Hoje guardo como relíquias muitos desses estados de pertencer, numa memória que procura sobreviver bravamente aos ataques diários de um mundo moderno cheio de pretenções impiedosas. Conservo comigo as delicadas horas, refugiando-me nos dias ensolarados que acordavam cedo o galo, cantando madruga a fora, servindo de despertador para os mais preguiçosos, numa rotina ainda pouco agitada, que contava lá fora a história de cada um. Abro sorrisos ao lembrar das crianças que, ainda sonolentas, apressavam-se para não chegar atrasadas na escola, um ritmo marcado pelos passos desajeitados. Mergulho no silencio do final de tarde que se encerrava com um por do sol cheio de esperanças e de preces anônimas de tanta gente. E suspiros me tomam por inteiro ao recordar de um céu sempre carregado de estrelas, deixando a noite romântica, misteriosa, carregadas de segredos. Recordo-me das pracinhas dos namorados jurando amor eterno entre abraços e beijos demorados, fotografados pelo próprio tempo na luta contra a impiedosa efemeridade do gesto. E sinto o passado que se faz presente, alimentando nossas lembranças e que nos faz pertencer, simplesmente, vivos para o futuro.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Olha pro céu meu amor
Que você fosse meu padrinho que São João mandou. Três voltas ao redor da fogueira, pronto, estavam feitos os laços sagrados de apadrinhamento. Assim era o São João no interior do Nordeste, enfeitado de rezas e do folclore mágico que dava sentido à imaginação. Manifestações populares passadas de geração a geração. Era de costume as pessoas se reunirem para celebrar os santos do mês de junho em missas solenes. Como também era de costume se reunirem ao redor de uma grande fogueira. Sinto o cheiro da madeira que era escolhida, especialmente, para ser queimada naquelas noites. Madeira seca, não molhada, falava a voz da experiência. Cada família construía a sua, numa espécie de ritual. Mas o ritual também era de cada um, cada um na sua ansiedade, na expectativa que fazia tudo ser melhor, maior. Ah, como eu poderia saber que a expectativa era o melhor da festa. Se alguém tivesse me dito isso, teria construído expectativas gigantescas. Teria guardado todas em uma caixinha invisível. Logo ao anoitecer as fogueiras eram acesas. O fogo clareava longe e aquecia o friozinho costumeiro naquele mês. As brasas salpicavam o chão de estrelas vermelhas que tinham a duração do pensamento. A missa abria os festejos e era a primeira obrigação, não no sentido mais literal, mas cristão. Uma devoção, eis o que era. Mas os festejos não se limitavam a rezas somente. Além das orações pedindo ou agradecendo pela fartura, saúde, casamentos, havia também a parte dançante, que na maioria das vezes se estendia madruga afora. A noite se tornava testemunha da homenagem. Estrelas vestiam o céu. Cá em baixo peças inteiras de chitas enfeitavam os salões paroquiais. O grito de "quem dá mais", anunciava que a quermece tinha começado. Nessa noite de estrelas, acontecia a escolha da Rainha do Milho representada por meninas e seus padrinhos, que traziam consigo uma quantia em dinheiro pras obras da igreja. O maior valor depositado no envelope dava o premio à Rainha candidata. Os desfiles apresentavam os concorrente. Enquanto isso, as primeiras paqueras envergonhadas, mas intencionalmente desejadas, experimentavam o primeiro beijo. Olhos das damas e cavalheiros corriam o salão à procura de um par, tendo como aliados a sanfona que encorajava os mais tímidos. Lá fora, as horas sendo queimadas, assim como a fogueira que ia se consumindo madrugada adentro. A noite abençoada pelos santos vai adormecendo cada ums numa orção sertaneja ao dizer "vê como ele está lindo, olhe praquele balão multicor que lá no céu vai subindo".
terça-feira, 5 de maio de 2009
"hoje o tempo voa amor...
...escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir que não há tempo que volte...". Metade de nós parece ser só saudade e a outra metade, divide-se em segundos e se aventura no futuro.
A vocês, caros leitores, um breve relato. Boa leitura!
- Só com o passar do tempo é que percebemos as nossas escolhas. O quão elas foram acertadas ou não. Casamos com a pessoa que achamos ser a certa. E praquele momento talvez o fosse. E nessa escolha não cabe gênero. Com essa escolha, vamos construir uma vida cheia de segredos e de silêncio. Rotineiramente tomamos café da manhã, almoçamos, vamos ao cinema, saímos pra dançar, partilhamos sonhos e construimos família. Tudo isso se arrasta de maneira misteriosa, quase inquestionável. A vida passa. A rotina cresce e com ela suas sombras, que vão se alimentando de coisas absolutamente mecânicas e reais demais. Os anos passam. Num belo dia, o mal humor toma conta. Palavras que antes serviam para elogiar, são ditas cheias de formalidades que assustam. Cada um se pergunta o que aconteceu, onde foi quebrado a harmonia. Os problemas são pesados demais para suportar. Os filhos crescem e a gente parece diminuir. O que nos sustentava, agora nos faz demolir. Vamos mergulhando numa vida tão distante da que tinha planejado. Falta ar e ao mesmo tempo vem aquela vontade de viver, de sair voando pela janela em busca do que ficou pra trás. Depois vem o medo. Vem a dor da separação, vem a preocupação com os filhos e por último a pergunta quem sempre esteve ali: o que vai ser de mim? Foi tudo um engano? Meu Deus, como pode? Como pude não perceber que não era ele o grande amor da minha vida? E a resposta só veio 15 anos depois. Parecia tão tarde. Mas no primeiro encontro com o meu passado, tive a certeza, depois do fatídico engano, que aquele era o amor que eu merecia. No amor a gente só se engana uma vez, pensei. Hoje adormeço sempre na esperança de acordar e ver que tudo já passou, que o engano me pegou na inocência dos meus sentimentos. E sei que posso recomeçar, e me tornar livre enquanto vivo o amor que deixei adormecido em mim por não saber que podemos cometer suicídio com os nossos sonhos. Mas eles sempre voltam.
A vocês, caros leitores, um breve relato. Boa leitura!
- Só com o passar do tempo é que percebemos as nossas escolhas. O quão elas foram acertadas ou não. Casamos com a pessoa que achamos ser a certa. E praquele momento talvez o fosse. E nessa escolha não cabe gênero. Com essa escolha, vamos construir uma vida cheia de segredos e de silêncio. Rotineiramente tomamos café da manhã, almoçamos, vamos ao cinema, saímos pra dançar, partilhamos sonhos e construimos família. Tudo isso se arrasta de maneira misteriosa, quase inquestionável. A vida passa. A rotina cresce e com ela suas sombras, que vão se alimentando de coisas absolutamente mecânicas e reais demais. Os anos passam. Num belo dia, o mal humor toma conta. Palavras que antes serviam para elogiar, são ditas cheias de formalidades que assustam. Cada um se pergunta o que aconteceu, onde foi quebrado a harmonia. Os problemas são pesados demais para suportar. Os filhos crescem e a gente parece diminuir. O que nos sustentava, agora nos faz demolir. Vamos mergulhando numa vida tão distante da que tinha planejado. Falta ar e ao mesmo tempo vem aquela vontade de viver, de sair voando pela janela em busca do que ficou pra trás. Depois vem o medo. Vem a dor da separação, vem a preocupação com os filhos e por último a pergunta quem sempre esteve ali: o que vai ser de mim? Foi tudo um engano? Meu Deus, como pode? Como pude não perceber que não era ele o grande amor da minha vida? E a resposta só veio 15 anos depois. Parecia tão tarde. Mas no primeiro encontro com o meu passado, tive a certeza, depois do fatídico engano, que aquele era o amor que eu merecia. No amor a gente só se engana uma vez, pensei. Hoje adormeço sempre na esperança de acordar e ver que tudo já passou, que o engano me pegou na inocência dos meus sentimentos. E sei que posso recomeçar, e me tornar livre enquanto vivo o amor que deixei adormecido em mim por não saber que podemos cometer suicídio com os nossos sonhos. Mas eles sempre voltam.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Sentido vago
"Eu não sei o que meu corpo abriga nessas noites quentes de verão...". Frases como essas ecoam silenciosamente. Se dilatam como pupilas cheias de mistério. E não precisamos fazer esforço nenhum. Frases como essas identificam e confundem, mas individualizam.
sexta-feira, 13 de março de 2009
A Coruja
Todos os dias, logo pela manhã, ela está lá, erecta, em pé. Não sei o que tanto olha, mas olha como se fosse um olhar de surpresa. Emite som estranho, como se fosse dizer algo. A mim, me parece um tipo de engasto, ou vômito, coisa assim. Uma impressão de enjôo constante. Mas até onde compreendo, também não consigo alcançar. Talvez seja só uma saudação matinal, talvez. Sempre elegante, roupa engomada, com ar nobre, alerta, como se tivesse vigiando cada passo, cada atitude, cada palavra dita. Sob o céu azul da Esplanada do Ministérios, parece querer desvendar mistérios outros, inauditos. De olhos arregalados como se fosse para não perder nada, nenhum movimento suspeito ou ameaçador, mantém-se feito cão de guarda, a ponto de avançar caso precise. Mostra-se impaciente e quase nunca aberta a diálogos mais íntimos. Fica lá, assim, como se sua vida fosse um eterno despertar. Mas ao mesmo tempo me parece tão frágil, de uma solidão tão azul quanto o céu, e tão imensamente grandiosa, quanto a sua eternidade. Um estrangeiro em terras outrora desertas. Os palitós e gravatas que circulam ao seu redor, não são mais elegantes que sua linhagem. O que lhe dá vida é o movimento, nada mais. Um movimento tão sutil quanto o breve olhar sem interesse. Olhar que apenas olha e o identifca como uma coruja que se perdeu no meio de tantos poderes.
quarta-feira, 11 de março de 2009
(In)Classificável
Ainda estou meio tonto pelo que vi e vivi. Sábado passado fui convidado por um amigo a ir assistir ao mais novo show de Ney Matogrosso, intitulado "Inclassificáveis". É de arrepiar! Sempre ouvi comentários sobre a maravilhosa performance do cantor no palco, mas, nem de longe, poderia imaginar que seria tão perfeita! Logo de início, ao abrir das cortinas me deparei com uma Fênix, no sentido mais metaforico da palavra. Sim, porque o que eu vi foi pura mitologia! Ney mais parecia um pásaro pousando ali, suavemente. A cada gesto, uma poesia bailada e iluminada pela luz dos grandes mitos. Porque Ney é mito e Ney é metáfora também. Mito porque quando sobe ao palco parece literalmente renascer sempre. E é na sua voz que ecoa rasgando o próprio tempo, que ele parece dizer, repetidamente, sonoramente, que sim ele é imortal. Metáfora porque ele por si só cria essa dualidade de ser homem e mito. "Inclassificáveis", meu Deus! Realmente pode-se dizer de boca cheia que seu mais novo show é inclassificável, porque não se pode mensurar o que é imensurável aos olhos do poeta. E Ney também é poeta. Num intervalo de uma música para outra, uma pausa para a troca do figurino, diga-se de passagem um luxo! Mas Ney, como era de se esperar, pelo grande artista que é e pela naturalidade que domina o palco, faz dessa troca uma brincadeira gostosa com o público, com cenas cheias de sensualidade e muito charme. Reverencia grande poetas, como Cazuza, ao abrir e encerrar seu show cantando "O tempo não para" e "Pro dia nascer feliz", respectivamente. Gesto dos grande artistas que dividem com humildade o palco com os outros mestres da música, em forma de homenagem. Assistir ao show de Ney é sentir-se hipnotizado pela beleza, pela poesia, pelo gesto, pela palavra, pela voz, pela grandiosidade de um artista de estatura mediana e aparentemente frágil, que se agiganta à medida que canta, como se fosse um dom, e é.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Uma pausa, o retorno
Depois de um longo período sem escrever uma linha se quer, eis-me aqui de volta, inteiro. É sempre bom paramos um pouco e escutarmos nossas falas internas. Façam isso, recomendo. Um ano de trabalho nos consome muito, mesmo quando o trabalho é prazeroso. Assim como nos consomem os amores, as paixões, as dores, as alegrias, as tristezas, o cansaço, a rotina. Parar e recarregar a bateria, nos torna vivos de novo, nos faz perceber a vida revelada em cada canto de pássaro, cada nuvem, cada nascer do sol, cada gota de chuva, cada flor, cada gesto. Silenciar para gritar. Gritar para silenciar. Nesse tempo em que fiquei ausente, viajei pelos lugares mais desejados e os meno esperado. Fui à Canoa Quebrada, praia que encanta os visitantes com suas falésias avermelhadas e deixa o Estado do Ceará ainda mais bonito. Praia que faz parte de minha adolescencia, das minhas lembranças. Descendo um pouco mais pelo nosso Brasilsão, chego as Minas Gerais, mais precisamente na cidade de Araxá, terra de Beja, das Termas. Um lugar que esconde tesouros naturais, paisagens inesquecíveis. Um pedaço cheio de sossego, com cheiro de terra molhada, um interior de vida mansa e preservada. Novos ares. E a vida continua...
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Palavras e suspiros e Dom Casmurro
Conversando com um amigo esses dias, trocando figurinhas a respeito da construção do meu blog, ele sugeriu que eu colocasse textos mais atuais e deixasse de ser, diríamos, tão melancólico, no bom sentido da palavra. Disse-me que o que escrevo ta muito bom, mas que gostaria de ler contos que falem do nosso dia a dia, do presente. Concordei. No entanto, digo que não somos feitos só do presente, mas de passado e futuro. O passado nos dá a exata noção de tudo. Do tempo que corre cada vez mais depressa como se fugisse de alguma coisa, do envelhecer, do crescimento, amadurecimento. Das lembranças, as boas e as nem tão boas assim. Não se pode fechar os olhos, com ar de indiferença, para essa conjugação verbal que se apodera de tudo. Seria inútil. É inútil. Nessa tentativa, teríamos que rasgar todas as fotos, quebrar todos os porta-retratos, usar uma borracha para apagar as memórias. Ainda assim, seria inútil. Passado tem cheiro, cor, vibração, vida própria. O blog tem essa intenção mesmo, de ser essa memória, de registrar ou de se fazer lembrar, não deixando, no entanto, de trazer coisas atuais, novas, nem mesmo de lançar olhares para o fututo, belo, incerto e atraente. Palavras e suspiros é isso. É o todo, mas que pode ser um instante, um sorriso. É um lugarzinho que criei para me reinventar. Como se pode ler em Dom Casmurro, obra de Machado de Assis, "Para preencher a vida pacata, Dom Casmurro resolve contar suas lembranças, isto é, atar as duas pontas da vida, a adolescência e a maturidade.
domingo, 23 de novembro de 2008
"Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas"
O som vinha de longe, mais precisamente da Capital do Brasil. "Será só imaginação, será que nada vai acontecer, será que é tudo isso em vão, será que vamos conseguir vencer". Bravo! Era o que gritava em mim por dentro quando escutava as músicas da Legião Urbana pela primeira vez. Parecia que eu estava ali, em forma de poesia, falando das minhas incertezas, angústias, alegrias, dos meus amores platônicos, da política suja, da solidão que assusta e que, ao mesmo tempo, nos fortalece. "Quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu disse contra mim, nada mais vai me ferir...". Corri numa loja de discos, sim, porque ainda não existiam CDs, DVDs, e garanti logo o meu vinil. A música unia. Intermediava o diálogo e parecia facilitar os desejos incomunicáveis. "Tenho andado distraído, impaciente e indeciso". Era mágico. Despertava sentidos adormecidos ou desconhecidos. Identificava. Cada um, antes isolado com suas dores, queixas, dúvidas, deixou de ser sozinho, e passa a enxergar-se, de certa forma, no outro que também quer romper o silêncio, falar, gritar. "Que país é esse, que país é esse?", ecoava pelo país afora. Tornou-se um hino. Era a voz que não mais silenciava. Não mais sufocada. O país se conhecia. Se indginava. Mas não era só isso não. Cada um começa a exercer sua liberdade. Antes desconhecida ou violentada. Liberdade em todos os sentidos. "Tire suas mãos de mim, eu não pertenço a você, não é me dominando assim que você vai me convencer". Liberdade que se espalha por todos as salas interiores ou não. "De tarde quero descansar, chegar até a praia e ver." Música que aproxima os olhares. Onde a paixão se agita. Onde os corpos se encaixam. Onde o beijo se arrasta suave, lento, sem pressa. Onde há dores de cotovelo. Lágrimas. Saudade. "Mas tudo bem, tudo bem, tudo bemm... lá vem, lá vem de novo, acho que estou gostando de alguém e é de ti que não esquecerei". Tudo eternizado, se não na lembrança, na musicalidade dos sentimentos, esses sim, jamais se perderão ao longo do caminho. "Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo, todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia".
sábado, 22 de novembro de 2008
Ser livre
Não, eu não tenho nenhum compromisso com a escrita. Definitivamente, não tenho e não quero. Nem com você, meu caro leitor, que eventualmente passa por aqui à procura de sensações. Não. Isso faria com que eu perdesse a minha melhor parte, a liberdade. E a liberdade é o que tenho de melhor quando escrevo. A liberdade é a minha combustão para a fantasia. É o que me faz enxergar, ainda que me leve a lugares dolorosos. Conheço muitos que se aprisionaram e se tornaram, excessivamente, cansativos. Os seus segredos passaram a ser copiados como frases feitas, apenas. Não, eu não posso ser assim. Prefiro a insignificância dos meus atos, o anônimato das minhas palavras, a invisibilidade dos que não me vêem. Escrever é a minha salvação. Escrevo para me libertar.
"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial". Virginia Woolf.
"Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial". Virginia Woolf.
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